Mostrando postagens com marcador Um pouco de reflexão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Um pouco de reflexão. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de julho de 2011

O homem, o universo e a transformação

(Por PaTTi Cruz)

Embora não nos faltem indagações, embora algumas respostas apareçam, a pergunta é sempre o que nos direciona o caminho. Estamos sempre insatisfeitos, por isso estamos aqui, na busca de mais; de mais saber, de mais acreditar, de mais existir, de mais transformar e transformar-se. É esta busca, esta incessante busca, esta sensação de garganta seca, suplicando pelo conhecimento derramado que nos move. A pergunta é só o pretexto para não parar de existir.

De acordo com Fayga Ostrower, o homem comanda a partir das suas referências seu processo de transformação e a construção de seu caminho. Este processo ocorre ininterruptamente, durante sua trajetória de existência e as implicações de suas ações sobre o contexto em que vive e mais amplamente, sobre o universo darão o tom e ritimo a caminhada. Fayga Ostrower, nos diz que toda a atividade humana está inserida em uma realidade social, cujas carências e cujos recursos materiais e espirituais constituem o contexto de vida do indivíduo. São esses aspectos, transformados em valores culturais, que o solicitam e motivam-no a agir. Nas palavras de Fayga criar é, basicamente formar, isto é, poder dar uma forma a algo novo. Fayga traz ainda a idéia de que as formas de percepção sobre as coisas, o mundo e a construção e, a percepção sobre as relações não se estabelecem ao acaso, há sempre um nexo, um sentido. E o homem é o centro focal que estabelece as relações entre os fenômenos que acontecem a sua volta, ligando-os entre si e vinculando-os a si mesmo. É possível acreditar que estas relações são feitas a partir das sensações e sentimentos atribuídos aos fatos e acontecimentos de acordo com as expectativas, desejos, medos e, sobretudo de acordo com a maneira que ordenamos todos estes sentimentos e as atribuições de valores em relação a eles. É nesta busca de ordenar e de significar, como menciona Fayga, que está colocada a intensa motivação do homem de criar. Ordenando, configurando, relacionando e significando os fenômenos, atribuindo e valorando o sentido das ordenações e formas, o homem comunica-se com seus pares e com o meio. Nestas ações despertam-se as possibilidades, suas potencialidades, que segundo Fayga se convertem em necessidades existenciais.

A percepção de si mesmo dentro desta ação é, de acordo com Fayga, um aspecto relevante que distingue a criatividade humana, impelida por novas necessidades, numa constância de movimentos, o potencial criador do homem surge na história como fator de realização e permanente transformação.

Em um processo de gestação de nós mesmos, vamos traçando nossos caminhos no útero do universo, numa ânsia de fazer eclodir nossos sentimentos em formas e cores, em pleno contato com as sutilezas que nos habitam. A partir desta manifestação caleidoscópica podemos dar forma a uma comunicação que se estabelece com o outro, muitas vezes reflexo de nós mesmos. Assim, dando forma o homem transforma, vai se configurando, configurando sua história e deixando sua marca, ele se descobre sujeito que cria e se recria neste universo a partir de si mesmo, a partir dos vínculos com seus semelhantes, que podem ser sujeitos também de singularidades e diferenças. Nesta diversidade de similitudes e complementaridades, convoca-se o homem a projetar seu ideal de mundo. Contudo, o homem só transforma o que está fora, ao seu redor, quando necessariamente transforma, primeiro aquilo que está dentro de si. Seu olhar e percepção não têm alcance adiante, quando antes não estiver voltado em sua própria direção, em uma busca de ajuste, de equilíbrio de si mesmo neste espaço de relação: homem-universo-homem. É quase, como se infinitamente, o homem tivesse que lapidar o equilíbrio todos os pardos ou coloridos dias na constante caminhada de seu destino à transformação.

No movimento do universo, na roda da vida que gira, dinamicamente no espaço da existência humana, na qual estamos agarrados, o que nos sustenta é esta leveza de sentir a poesia do mundo, nos seus diferentes contextos. A poesia que nos fala sobre as adversidades e bem-aventuranças, a poesia que nos canta e encanta, a poesia que nos alimenta. E embalados por esta poesia o universo dança dentro de nós. Nosso ritmo interno se projeta nas linhas da partitura da melodia do mundo e este som tem o tom que damos a ele, a partir do que pensamos, do que somos e do que desejamos, a partir do que acreditamos e sonhamos é que se nasce para tudo que existe a nossa volta. Na poética dos movimentos, das palavras, projetamos sentimentos e na regência desta orquestra de cordas que tramam a roda da vida, neste ato que não é apenas pura e simples contemplação, mas a ação equilibrada de tudo que nos compõem é que adquirimos nossa identidade de ser.

Diversidade x Exclusão?

Por PaTTi Cruz

Em nome da diversidade, estamos vivendo uma situação onde o mundo passou a ser um lugar de fragmentação social. A diversidade não deveria ter o significado que o meio reflete, embora seus sinônimos nos dicionários tenham relação direta com aquilo que é dessemelhante, contraditório ou oposto. O foco que supunha-se dar ao termo diversidade, é saber sim sobre as diferenças e compreender que ser diferente é algo comum e não ser alguém alheio ao mundo, apenas distinto dentro dele. Contudo, este ideal diverge do que vem ocorrendo. A força desta expressão tem levado o sistema em que estamos inseridos a criar novas esferas que comportem cada sujeito com suas verossimilhanças no mesmo contexto, como se este fosse o único espaço onde pudesse viver em consonância. O fato de ser diferente não justifica que outras esferas, outros meios sociais, devam ser criados, no sentido de acolher estas pessoas, pois se assim fosse, cada sujeito viveria em uma ilha, distante de outros seres, pois todos diferimos em algo, o que quer que seja e nem por isso temos que estar distantes, porque justamente nas diferenças nos complementamos.

Historicamente as diferenças sempre foram o pivô das maiores desavenças e destruição de lugares e pessoas. É pela simples discordância de opiniões, crenças, preferências que povos e nações deixaram de existir, que inúmeros países tiveram que recomeçar como fênix, renascendo das cinzas e que muitas famílias perderam seus filhos, pais e esposas. E a impermanência da vida harmônica em sociedade continua descortinando o véu que cai sobre as forças das divergências. Naturalmente que aquilo que é contrário a meus desejos e opiniões causa certo desconforto, mas até que este seja um motivo plausível para justificar meu anseio de repulsa a outro ser, ou meu desejo de desaparecimento deste, da face social, colocando-o à margem de todo um contexto, denota no mínimo que sou tão repulsivo quanto este outro, que a mim parece “estranho”, só pela existência de outra forma de perceber as coisas do mundo. O domínio de nossas emoções é de grande valia no que diz respeito ao acolhimento do que é dito ou pensado por pessoas com as quais convivemos, do que é manifestado por elas e de que forma agem sobre determinadas situações. Da mesma forma que queremos ser compreendidos em nossas ações, creio que deveríamos ao menos exercitar a mesma intensidade de compreensão.

Tratando-se das forças que nos movem no caminho das diferentes formas de ser em um contexto social, conjuga-se que a vida é feita de polaridades, tendo em vista não aquilo que está em outra extremidade e se opõe ao que penso, digo, faço e como sou enquanto ser humano, mas, fixando o olhar naquilo que pode me complementar, assim como os pólos de uma pilha que permitem o funcionamento do rádio que nos oferece a melodia harmônica. Ainda que eu seja diferente, posso “funcionar” harmonicamente, com ou outros tantos que são também diferentes. E, remetendo a lembrar do nosso meio mais próximo de “formação” enquanto seres de convivência, depois do núcleo familiar, ou quase que concomitante a ele, pois cada vez mais cedo as crianças chegam a este espaço, a escola é a grande mantenedora ou transformadora desta forma de perceber o mundo. Esta forma que alimenta as diferenças como essencial para a complementaridade ou nutre as diferenças como indicadores de oposição e fragmentação social.

É fato indiscutível que pelo estilo de vida que se leva neste meio social, onde somos constantemente requisitados ao trabalho, para uma melhor sustentabilidade dentro do processo vital, pais precisam colocar seus filhos cada vez mais cedo nas escolas. Nesta rotina atribulada, pouco conseguem um contato real, despreocupado, com a mente leve e totalmente voltada a seus filhos. Pouco conseguem se desvencilhar dos compromissos externos e direcionar outros e novos compromissos com o núcleo familiar. Normalmente, o tempo maior destinado aos afazeres são fora de casa. Isso tudo deixa o vínculo mais frágil e desestabiliza a estabilidade das relações. É claro que existir, subsistir no meio é necessário, assim como é necessário colocar-se integralmente, ser inteiro nos poucos momentos em que se está no centro familiar. São nestes momentos de entrega que é possível perceber aspectos importantes do desenvolvimento, que denotam, por vezes, uma atenção maior, principalmente junto as crianças. Uma série de problemáticas, vinculadas ao desenvolvimento da criança pode manifestar-se dentro de casa, em convivência com os pais, sem que seja percebida como fator de entrave no contexto educacional. Na escola, estas mesmas problemáticas se acentuam, na medida em que os alunos, estão em grupo e distinguem-se dos colegas por suas dificuldades. As reações que pode ter, por parte destas crianças são inúmeras. Algumas manifestam-se “tímidas”, retraídas, caladas sendo algumas vezes e na maioria delas, afastadas da convivência em sala de aula, ou no espaço do recreio. Assim, passam a não ter uma atenção voltada para a constatação da problemática, como também não têm adequação de propostas que pudesse estimulá-las ao crescimento pessoal em busca de uma solução. E, como conseqüência desta inadequação de ação por parte do corpo educacional, são crianças que passam a resistir na vida escolar sendo vistas como aluno-problema. Há circunstâncias em que alunos com dificuldades, independente da origem do problema, buscam uma forma de compensação para um ego danificado, sendo aqueles que salientam-se negativamente no grupo, sendo julgados como tendo pouca disponibilidade para a vida escolar. Aqueles que só querem saber da bagunça, transformando-se até, em líderes negativos dentro de um grupo. Estes alunos acabam por ser categorizados, estigmatizados, e com eles vêm toda a gama de outras dificuldades que possam existir no meio escolar, os quais a equipe educacional não consegue dar conta, pois está longe de ser um número irrelevante. O fato é que estas questões se agravam, avançam e transcendem o espaço destinado as primeiras formações do sujeito enquanto pertencente a um espaço social. Elas tomam proporções gigantescas, alastrando-se vida à fora e acompanhando aquele menino ou menina que estava na sala de aula e agora precisa ocupar seu espaço, ou melhor, conquistar seu espaço no mundo e manter sua sustentabilidade no meio.

É urgente a atenção que necessita ser construída na garantia de olhos que observem estas problemáticas, mentes que elaborem idéias e mãos que manobrem criativamente formas de acolher estes alunos, para que sintam-se parte do meio que deveria provê-los de segurança. Nesta suposta guerra dos opostos somos os dois pólos das pilhas que buscam a harmonização e compreensão em relação a diversidade, como sendo algo que nos complementa e não nos afasta. Para que não sejamos fênix, tendo que renascer das cinzas, nossos desejos devem ser alimentados pelas forças que convergem na intenção maior, não querendo contradizer a física, de estarmos no mesmo espaço (meio social), mas cada um tendo a oportunidade de conquistar seu lugar. Para que não sejamos fragmentos sociais e sim inteiros em nossa responsabilidade primeira, que é conosco mesmo e outrora no caminho que segue de nossa aliança com cidadania e o mundo. Somos sempre, desde a pré-história, seres em relação, necessitando uns dos outros para nos constituirmos enquanto indivíduos. De lá para cá nada mudou neste sentido, cada um na sua singularidade é que pode construir o espaço plural e coletivo. Mas, se as idéias que afastam aqueles que são diferentes permanecerem, como foi dito ao início, em nome da diversidade que deveria acolher, e ao contrário, exclui, há algo ainda que retornará como herança cruel dos nossos ancestrais pré-históricos: a postura de ereta, que olha adiante, voltará os olhos para os pés, quando ainda andavam com as mãos encostando no chão, olhando para baixo, percebendo quem sabe só a si mesmos, suas pegadas e suas presas.

As Dinastias do Sagrado e do Profano na era da Inclusão

(Por PaTTi Cruz)


Vivemos em uma sociedade onde a força dos atributos que cada indivíduo possui determina seu envolvimento ou afastamento com seus membros. Na coletividade vivem aqueles que podem prover a sociedade com seu trabalho e colaboração enquanto cidadãos, pessoas estas capacitadas e qualificadas em algo que injetam na esfera econômica sua mão-de-obra. É evidente que se está relacionando aqui indivíduos que de alguma forma são eleitos como qualificados por algum grupo de outros sujeitos que declaram quem e porquê estão aptos a fazer parte deste contexto de pessoas que contribuem para a promoção desta sociedade. A característica de pertencer é oportunizada para muitos, mas não para todos. Eis o ponto em questão para a reflexão que este artigo se propõe, refiro-me a esta parcela que está à margem do contexto social, por motivos óbvios uma vez, que se considerarmos as qualidades produtivas dos membros que compõe a sociedade teremos os aptos e em contrapartida logo adiante estão aqueles que distante dela, pela percepção apenas de suas limitações, ficam a deriva na periferia do mundo.

Nos perguntamos então porquê esta distinção? O que torna uns melhores que outros e melhores em que exatamente? Deixariam estes sujeitos, por terem suas limitações, de ser cidadãos e de pertencerem à sociedade? A questão vai ainda mais a fundo, considera-se limitação somente o que é visível, apresentado no corpo do sujeito como uma marca? Se formos pensar a respeito de limitações, poderíamos nos perceber como indivíduos que têm também em alguma área física ou não dificuldades e ainda assim nos consideramos dignos de estar neste contexto. O que nos dá este poder de escolha, de eleger quem é digno de estar no centro do mundo e quem deve estar à margem deste? Porque nosso olhar lê assim as entrelinhas e constrói este mundo? O que nos direciona para isto é nossa história de vida, aquilo que escutamos e assimilamos ao longo do tempo? Neste seguimento de construção da leitura de mundo e pessoas que o compõe, e de perceber o outro como alguém inapto ou apto a pertencer ao meio por apresentar sinais que o tornam diferentes da maioria levando a organização de uma auto-imagem ou identidade pessoal distorcida, temos dois autores que nos revelam conceitos e percepções de como e porque a sociedade agrega ou rejeita seus membros. Serge Moscovici, que remete ao pensar sobre as Representações Sociais e Erving Goffman que aborda sobre a construção dos Estigmas.

Antes de destacar as idéias destes autores quero propor uma reflexão que talvez nos permita validar as justificadas percepções sobre o mundo e o outro. Analisando o contexto histórico que estrutura o meio social podemos citar na origem dos povos a formação de castas que ditaram as normas para seus subordinados. Há na Antigüidade, assim como nos tempos atuais a sustentação de uma característica que é intrínseca a estes sujeitos que ocupam nas castas o seu ponto mais alto: a vaidade. A vaidade que segundo seu significado literal é a qualidade do que é vão; desejo imoderado e infundado de merecer a admiração dos outros; vanglória, ostentação, futilidade (Dicionário Michaelis). Mas, que independente de sua definição, produz uma sensação de satisfação por parte daqueles que têm nas mãos aquilo que a promove: o poder. Ainda que uma sensação momentânea parece alimentar o ego daqueles que a possuem, pois sua definição deixa claro ser esta uma futilidade e algo que é vão, uma vez que pela lógica social, toda vez que aparecer outro sujeito que detenha mais poder aniquilará tal sensação que era pertinente ao que foi “dominado”. Passando então ao novo detentor do poder a vaidade de ser aquele que determina as regras. Estas características e sensações de vaidade e poder, aparecem com toda a força na estruturação do meio social por toda a trajetória humana.

Retomando o sistema de classes desde os tempos mais remotos, temos a organização da sociedade constituída através da promoção ou destituição de seus membros. Na origem dos povos mediterrâneos fora construído o Templum, um local destinado às previsões climáticas que regiam o movimento daquele povo em sua organização econômica, previsões estas feitas através de análises e estudos secretos de Matemática, Física e Astronomia, realizados por indivíduos qualificados para tal fim. Um exemplo de detenção de poder, o poder do conhecimento que ficava confinado, tendo alcance apenas dos eleitos. No princípio, era apenas um quadrilátero projetado no chão, depois ergueram-se paredes a sua volta e um teto fora projetado: o Templum Moderno, onde os sacerdotes continuaram seus estudos e análises sobre os acontecimentos ocultos aos “comuns dos mortais”. O termo Templum correspondia a fanun. Parte da população, os incrédulos e ignorantes, não podia entrar no fanun e por isso foi construída à porta do Templum uma espécie de varanda, onde ficavam os não dignos de entrar. A esta parte na entrada do Templum deu-se o nome de Profanun, de onde originou-se o nome Profano, para aqueles que não se enquadram no que é Sagrado. O termo Sagrado do latim Sacer (de Sacros) proveio do Indo-Europeu, cuja raiz significava, como em Sânscrito, Lugar Demarcado, Delimitado, que era para aqueles que haviam sido escolhidos como os melhores, dignos de pertencer àquele local.

Em uma relação muito próxima com a designação de lugar, o termo Estigma originou-se em um período cujo sentido servia como referência para sinais corporais, que evidenciava algo fora do comum, anormal. Estabelecido pelos gregos, conforme relata Goffman, tais sinais eram feitos com cortes ou fogo no corpo e informavam que o portador era um escravo, criminoso ou traidor, uma pessoa marcada que devia ser evitada principalmente em lugares públicos. Na Era Cristã foram atribuídos dois sentidos ao termo: um referindo-se a sinais corporais de graça divina que tinham a forma de flores em erupção sobre a pele; outro uma alusão médica a essa alusão religiosa, referia-se a sinais corporais de distúrbio físico.

Assim, a sociedade vem ao longo do tempo estabelecendo as determinações de lugar de pertencer ao indivíduo, categorizando-o, classificando-o e justificando sua forma digna ou não de fazer parte deste contexto. O que não podemos esquecer é que nós também compomos a sociedade, esta mesma sociedade que criticamos e tornamos inválida na medida em que nada fazemos para modificar aquilo que, parecendo até contraditório, reivindicamos. Uma sociedade engessada pelo tempo e condenada a estar cada vez mais aniquilada pela prepotência de uns em detrimento das supostas incapacidades e limitações de outros. O que isto revela é que equivocadamente, não contatamos com pessoas, mas sim com seus estereótipos, aquilo que está em evidência para que nosso olhar crítico perceba. De acordo com o que Goffman aborda, quando um estranho nos é apresentado, os primeiros aspectos nos permitem prever a sua categoria e seus atributos, a sua “identidade social”. Na maioria das vezes nem se quer supomos que talvez, o que estamos observando não seja tudo, isto é, nem sempre oportunizamos ao outro que se manifeste em sua totalidade de ser. Estas “provas de capacidades e atributos” que muitas vezes não permitimos ao outro fazer revelaria sua identidade social real. Com este ímpeto julgador, providenciamos uma dualidade de existência: a imagem de um indivíduo que apresentará atitudes a partir das evidências de seus atributos de acordo com as nossas expectativas e a imagem que desconheceremos se não o oportunizamos apresentar, e que ainda assim existe e que representaria de fato suas reais capacidades. Pois, é a partir do que observamos em relação ao outro que criamos nossos mitos e estigmatizamos pessoas, baseando-nos em preconcepções transformamos suas imagens tornado-as distorcidas de pessoas desacreditadas. Através destes pré-conceitos, nesta nossa antecipação das capacidades e incapacidades do indivíduo elaboramos e fortalecemos nossas representatividades sociais, como faz referência Moscovici, quando cita que as Representações Sociais são obtidas através do processo pelo qual o sujeito atribui sentido a um dado objeto, a partir de suas experiências e relações. Acredito que ao longo dos tempos fomos formando idéias equivocadas a respeito do outro que muitas vezes como nós, têm suas limitações. Contudo, o questionamento é: o que me faz ver o outro tão diferente de mim, se em suas diferenças encontram-se também similaridades relativas ao ser enquanto humano, e tão humano quanto eu? O que me faz crer que a diferença do outro é maior e mais comprometedora que a minha, que minhas dificuldades são mais leves e toleráveis, e que tenho eu mais valia que meu semelhante? Ao estabelecer uma relação com o espaço destinado ao ensino, percebo o quanto isto também se reflete. A Escola enquanto instituição ideológica colabora de maneira efetiva para a consolidação das diferenças que a sociedade como um todo vem estabelecendo, ou dependendo de sua filosofia trabalha no sentido de desmistificar os rótulos e pressões das marcas fixadas pela sociedade que provoca o preconceito, a rejeição e a exclusão social.

É necessário abordar um aspecto muito importante e porque não dizer, determinante da manutenção de um separatismo entre as Escolas Especiais e as Escolas Comuns, como assim chamarei aqui as Escolas Regulares: o sistema educacional e a relação de poder. A partir da aceitação ou não de determinados alunos, as Escolas acabam de certa forma categorizando-os entre sujeitos comuns e incomuns, isto é, os incomuns são aqueles que estão fora do que é convencional, fora de um padrão tido como normal. Não muito diferente do que acontecia na organização da sociedade e a concessão do acesso ao ensino na origem dos povos do mediterrâneo, nossas Escolas por longo período puderam exercer sua função de apoderamento nesta relação: para quem destinar a educação nas Escolas Comuns? Quem eram os Sagrados que poderiam participar do espaço delimitado ao alcance do saber mais qualificado e quem deveria ficar na “varanda”, quem eram os Profanos, indignos de pertencer àquele meio, por serem desacreditados de suas potencialidades? Maneira pela qual as Escolas Especiais concentraram uma forte cultura em nosso meio propondo um ensino diferenciado para pessoas diferentes. Neste processo, a trajetória extensa do sistema de ensino nos apresentou muitos sentidos para o entendimento das necessidades das pessoas com deficiências. Em larga escala as Escolas, tidas antigamente como estrutura de Instituição (até aproximadamente 1948), “defendia” seus integrantes a base de um segregamento que em sua função teórica servia como que para protegê-los, pela sua falta de habilidade de sobreviver ao meio e lutar por suas conquistas. Era um espaço assistencialista onde os profissionais serviam para serem seus cuidadores, mantendo a tranqüilidade das famílias pela guarda temporária de seus filhos. Por volta de 1970, estas Escolas passaram para um movimento de espaço Integrativo e Adaptador, onde se procurava de alguma forma agregar ao meio social as pessoas diferentes. A partir do ano 2000, aproximadamente, o sistema de ensino buscou um espaço mais Inclusivo e Transformador, muito pela necessidade de um olhar diferenciado sobre o sujeito portador de deficiência, mas muito também, infelizmente, movido pela determinação da lei que outorga para estas pessoas o direito de estarem inseridas, preferencialmente, em Escolas Comuns (Regulares).

Um fato se debruça sobre nossa ação pedagógica, o que e como nós educadores trabalhamos para apresentar o portador de deficiência como alguém capaz. São nossas crenças em suas potencialidades que podem despertar a sociedade para que modifique seu olhar sobre aquele que é diferente. Se acreditamos que ser diferente é algo comum, e, portanto não há o que nos impeça de convivermos no mesmo espaço social, o portador de deficiência é alguém apenas diferente tanto quanto nós o somos diante uns dos outros. Não há, portanto nenhuma indignidade de pertencer ao contexto social que é comum a todos, até porque esta mesma pessoa portadora de deficiência não foi concebida fora dele para em algum momento não pertencer a ele de fato. Em minha prática pedagógica, aprendi que para trabalhar com pessoas portadoras de deficiência é primeiro preciso aprender a trabalhar com pessoas. Isto é, é preciso perceber o aluno como sujeito em sua totalidade de ser, em suas características comuns inerentes ao ser humano: saberes, desejos, sentimentos, sensações, humor, temperamento, personalidade e ter claro que suas diferenças são apenas diferenças que não invalidam todas as características anteriores. Este sujeito é alguém comum e que tem assim como limitações (que fazem parte da constituição do humano), potencialidades e que é a partir delas que elaboramos nossas propostas em sala de aula. O direcionamento do olhar ao outro é um caminho de percepção de si mesmo, uma vez que se acreditamos que nossa leitura de mundo está diretamente relacionada com nossa cultura, como sugere Moscovici, isto é, com tudo aquilo que absorvemos desde os primórdios de nossa existência, como herança das crenças de nossos antepassados remotos e recentes, é na construção de nossas ações como processo de formação de nosso meio que nos inserimos e inserimos o outro no contexto em que vivemos, ou o excluímos pelo fato de não aceitarmos o sentido de pertencer do outro por critérios que elaboramos a partir de nossos ideais. O olhar que temos sobre o outro é um reflexo de nossa leitura de mundo e de tudo que acreditamos. Contudo, se somos sujeitos que constroem a história e não nos sentimos passivos em relação a ela, com nossas ações alimentamos a cristalização das incapacidades. Com nossa consciência ou inconsciência estabelecemos parâmetros de classificação e critérios para aceitação de indivíduos ao nosso meio. Talvez se substituíssemos nossa idéia de incapacidade pela noção de possibilidade, reduzíssemos consideravelmente as fronteiras que nos afastam e evidenciam a beleza dos linces e a degradação dos patinhos feios. Cabe a cada um de nós que deseja um meio social que não classifique seus indivíduos pelas suas diferenças, propor a queda das Dinastias dos Sagrados e dos Profanos e abrir um Templum Escola que seja comum a todos, sem ter varanda alguma a sua volta, para que justamente a partir das diferenças possa se estabelecer de fato um pacto social com a Construção da Cidadania em uma sociedade em que as capacidades possam se destacar.

Bibliografia

GOFFMAN, Erving – Estigma: Notas sobre a Manipulação de Identidade Deteriorada Editora Guanabara 4ªedição